VLT traz benefício ambiental e retorno a longo prazo, diz diretor da Alstom

Movido a eletricidade, de menor impacto operacional e ambiental portanto, o sistema VLT (veículo leve sobre trilhos) cresce de importância no país. Nesta entrevista, o diretor da Alstom, Cristiano Saito, avalia as vantagens e benefícios do modal, dá explicações técnicas sobre seu funcionamento e, entre outros assuntos, fala da fábrica recém-implantada no interior paulista, que fornecerá carros para o VLT carioca.

Leia a seguir:

Os sistemas de VLT são realmente mais caros do que os corredores de ônibus BRTs? É possível avaliar o custo no longo prazo, considerando manutenção, custos de energia e custos de operação? 

O investimento inicial do VLT é de fato maior do que o dos BRTs, mas a longo prazo o retorno é maior devido à sua longa vida útil. Comparado com outros modais sobre trilhos, o custo do VLT é menor, apesar de ter capacidade menor do que a do metrô, por exemplo. Além disso, é necessário destacar outros benefícios do VLT como o menor impacto ambiental e a possibilidade de reurbanização associada ao projeto, gerando retorno em qualidade de vida para a população. Vale lembrar, ainda, que os VLTs já existem há várias décadas em inúmeras cidades do mundo, principalmente na Europa, e comprovadamente produzem benefícios, como a ordenação do tráfego urbano, redução dos níveis de poluição e melhoria da mobilidade urbana.

Em relação ao Brasil, alguns fatores irão contribuir para reduzir gradativamente os custos relacionados à implantação do VLT, entre eles a experiência que o país acumulará no desenvolvimento de projetos envolvendo esse modal, desde a criação dos corredores até a operação dos veículos, assim como a existência de uma linha de produção nacional que elimina a necessidade de importar os VLTs.

Os VLTs também ajudam a reduzir os custos e o consumo de energia no longo prazo. Seu impacto ambiental local é mínimo devido à tração elétrica. Além disso, o VLT demanda uma faixa mais estreita na via do que o BRT, o que causa menor impacto urbano durante a operação.

 

Qual o custo mínimo de implantação de um sistema de VLT por km, incluindo via permanente, sistema de alimentação, controles e veículos? 

É muito difícil precisar um valor, já que o projeto muda de cidade para cidade. Temos que levar em consideração se o projeto usará catenárias, o tamanho dos trens e o tempo para implantação do projeto. É muito importante ressaltar que não podemos considerar esse tipo de projeto como uma comodity e as características de cada um devem ser muito analisadas para a entrega da melhor solução, dentro do orçamento adequado.

Outro fator importante para calcular os custos é a capacidade de transporte. A flexibilidade do VLT permite, ao longo do tempo, acrescentar veículos conforme a demanda de passageiros em uma determinada via, o que ajuda a tornar o sistema mais eficiente. Outro ponto é a durabilidade: os veículos têm vida útil de mais de 30 anos, enquanto em sistemas rodoviários esse prazo é pelo menos três vezes menor.

 

Quais são os maiores diferenciais dos VLTs quando comparados aos antigos bondes, quanto à segurança, conforto e evolução tecnológica?

Embora se assemelhe no compartilhamento da via aos antigos bondes, que até a década de 1960 circulavam nas cidades brasileiras, o VLT é uma solução totalmente nova, que gera um menor impacto operacional e ambiental. Em relação à segurança, o modal tem como característica a presença de três mecanismos de freio: mecânico, motor e de emergência. As condições de acessibilidade também chamam atenção, pelo piso baixo que permite o acesso total a pessoas com mobilidade reduzida. E a flexibilidade ajuda a garantir ao VLT um bom desempenho operacional tanto em via exclusivas (desenvolvendo maiores velocidades) como em via compartilhada com o tráfego rodoviário urbano. Além disso, os veículos são climatizados e emitem um quarto do ruído do tráfego de veículos a combustão.

 

Em relação à alimentação elétrica, como funcionam os capacitores/baterias que alimentam os carros entre as estações? Qual é a tensão de alimentação? Em caso de panes elétricas, o sistema tem backups para manter o funcionamento?

O VLT do Rio será um dos primeiros do mundo a ser totalmente sem catenárias – utilizadas para captar energia elétrica em fios suspensos. O abastecimento de energia será feito pelo sistema APS (alimentação pelo solo), que é uma espécie de terceiro trilho, mas com energização apenas no trecho coberto pelo veículo, sendo assim totalmente seguro para pedestres e automóveis, sem risco de choques. No Rio de Janeiro, o sistema ainda conta com supercapacitores e baterias para garantir a autonomia dos veículos, por exemplo, em cruzamentos.

No VLT Carioca, o sistema de alimentação será conectado a dois pontos de fornecimento da concessionária de energia elétrica. Em caso de falha de um dos dois, o circuito continuará sendo alimentado, mas de forma parcial – com intervalos maiores, velocidades reduzidas ou operação somente em alguns trechos das linhas. O objetivo será manter um funcionamento operacional constante e adequado, para um maior conforto, segurança e mobilidade dos usuários.

 

Em cidades da Europa, Austrália e América do Norte os carros do VLT normalmente circulam nas ruas, em meio ao tráfego. Os projetos brasileiros em geral trabalham com vias segmentadas, como ferrovias ou metrôs leves. Por que essa diferença?

Muitos projetos classificados de VLT no Brasil são na verdade baseados em trens suburbanos mais leves movidos a diesel/ biodiesel em bitola métrica. Esta opção está relacionada ao reaproveitamento de vias já existentes, principalmente no Nordeste, como são os casos do VLT do Cariri (CE) e do VLT de Cajueiro Seco-Cabo (PE). Com os novos projetos de VLTs elétricos, como o VLT Carioca, devemos observar um aumento de projetos de VLT em via compartilhada.

 

Quais são os projetos de VLTs que envolvem a Alstom no Brasil? 

O VLT está ganhando importância como uma das soluções para os problemas de mobilidade urbana nas cidades do Brasil e da América Latina – e é por esse motivo que a Alstom inaugurou uma nova linha de produção de VLTs em Taubaté (SP), com investimento de cerca de R$ 50 milhões. Os primeiros VLTs a serem produzidos nessa fábrica farão parte dos 32 veículos modelo Citadis encomendados em setembro de 2013 para a cidade do Rio de Janeiro, para o consórcio do VLT Carioca. A expectativa é de que os modais sejam entregues entre 2015 e meados de 2016, a tempo para os Jogos Olímpicos. O primeiro trem, mas produzido na França, foi entregue este mês à cidade.

Além do Rio de Janeiro, outras capitais brasileiras e cidades da região atuam para desenvolver novas obras de infraestrutura que têm esse modal ferroviário como meio de transporte. A Alstom está preparada para atuar como parceira para a viabilização técnica desses projetos também em outras cidades do Brasil, mas no momento está implantando apenas o projeto do Rio de Janeiro. O outro projeto em andamento na América do Sul é o de Cuenca, no Equador.

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