Tão perto, tão longe

taopertotaolongeSete milhões de pessoas se deslocam de cidade para trabalhar e estudar; viagem diária afeta saúde

-RIO E SÃO PAULO- Após morar a vida inteira no Rio, o advogado Rubens Ribeiro, de 38 anos, se mudou para a Zona Sul de Niterói em 2006, quando se casou com uma moradora da cidade. Com semblante cansado, o carioca deixa claro que até hoje não se acostumou com a odisseia diária para chegar ao trabalho, na Cinelândia – gasta uma hora e meia para percorrer cerca de 20 quilômetros. Volta e meia o desgaste é discutido com a mulher.

– Sempre falo que fico muito cansado – revela. – Penso em, um dia, voltar para o Rio.

Assim como Ribeiro, um milhão de pessoas se deslocam frequentemente por 18 das principais cidades do estado, mostra estudo nacional do IBGE divulgado ontem, baseado no Censo Demográfico de 2010. É o segundo deslocamento em número de pessoas dentro de um arranjo populacional – termo usado pelo instituto para definir agrupamentos de dois ou mais municípios com grande integração de habitantes, quando estes trocam de cidade para trabalhar ou estudar. O principal é o de São Paulo, onde 1,75 milhão de pessoas circulam entre 36 municípios. Em todo país, são 7,4 milhões.

No país inteiro, as 294 aglomerações urbanas mapeadas pelo IBGE abrigam 106,8 milhões de pessoas – o equivalente a 55,9% da população do Brasil -, distribuídas por 938 municípios. O maior número de arranjos (112) está no Sudeste; o menor (17), na Região Norte.

– Fizemos uma síntese do que acontece hoje no país – destaca Monica O’Neill, pesquisadora do IBGE. – Em vez de estudarmos apenas as metrópoles, identificamos também as pequenas concentrações. Algumas contam com um papel estratégico e uma dinâmica própria, que não vemos nas grandes cidades.

Para Monica, o levantamento também evidencia novas demandas, que devem ser atendidas pelo poder público.

– Encontramos problemas relacionados à Mobilidade urbana, e acredito que o estudo pode auxiliar (novos projetos) – assinala. – A lógica do mercado de trabalho é diferente da lógica da moradia. Então, a periferia é cada vez mais incorporada à cidade.

O economista Vitor Mihessen, coordenador da Associação Casa Fluminense, calculou o tempo de deslocamento de ida e volta para o trabalho nas principais cidades do Rio. O resultado: o carioca gasta, em média, um mês por ano no trânsito: – Com o crescimento das cidades, a população é cada vez mais empurrada para longe dos centros onde há maior geração de empregos e, muitas vezes, se instala em locais com pouca infraestrutura.

Devido à forte integração dos arranjos municipais, Rosana Baeninger, professora de Demografia e pesquisadora do Núcleo de Estudos da População (Nepo) da Unicamp, recomenda que as prefeituras trabalhem em conjunto: – Não dá para pensar nos municípios isoladamente. A circulação das pessoas mostra a importância das articulações entre as municipalidades, especialmente para discutir a Mobilidade urbana.

ESTRESSE E PRIVAÇÃO DE SONO Segundo o neurocientista Diogo Lara, pesquisador da PUC- RS, as pessoas compensam o tempo gasto em grandes deslocamentos diminuindo o tempo de sono ou de lazer. Além do estresse com o trânsito, a população perde qualidade de vida.

– O sono é o purificador do cérebro, ele ocnsolida o aprendizado do dia – comenta Lara, que sugere estratégias para quem não pode mudar essa realidade. – As empresas, por exemplo, poderiam escalonar a entrada e a saída de seus funcionários. Entrar em horários alternativos evita o pico do trânsito.

O neurocientista afirma que a população também deveria aproveitar o tempo gasto no Transporte Público para atividades como ler, estudar e ouvir música.

Arnaldo Lichtenstein, clínico-geral do Hospital da Clínicas da USP, conta que já viu uma pessoa pintando uma tela no metrô. Mas relaxar não é fácil. Quem vive no trânsito tem picos hormonais e descargas elevadas de adrenalina e cortisol. O passageiro fica submetido a esta situação durante todo o deslocamento: – E esses hormônios, em grande quantidade, não fazem bem à saúde. Na História da Humanidade, eles auxiliavam o homem na caça ou para fugir de um tigre. Uma coisa é ter essa descarga durante 30 minutos. Outra, por três horas. Lá no fim da linha, pode acarretar consequências graves, como infartos e derrames.

Carlos Alberto Penatti, neurologista do Laboratório Fleury Medicina Diagnóstica e professor do curso de Medicina da Universidade Nove de Julho, observa que o corpo reage a essa quantidade de hormônios. Penatti alerta para problemas como hipertensão arterial e mecanismos inflamatórios, que atingem, de forma geral, todos os órgãos do corpo: – Esse estresse facilita o processo danoso aos órgãos, causando desgaste e antecipando o envelhecimento.

A ausência de sono, o sedentarismo e o estresse já fazem parte da rotina da bancária paulista Valquíria Trombeta Casimiro, de 39 anos, que perde três horas diárias no Transporte Público indo e voltando do emprego – ela mora em Carapicuíba, na Região Metropolitana de São Paulo, e trabalha a 30 quilômetros dali, em Jabaquara, bairro da Zona Sul no capital. Juntando expediente e a via crúcis, quase metade do dia já está comprometida, o que a fez desistir de cursos e das aulas de ginástica.

– Eu me estresso mais com a logística do que com o trabalho – desabafa. – Só consigo deitar às 23h e, às 5h40m, já estou de pé. Se não chego às 7h na estação, não consigo entrar no trem. Sentar durante a viagem, então, nem pensar.

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