Recife e a imobilidade urbana – A imobilidade urbana – MARILIA ARRAES

As grandes cidades brasileiras, e mesmo aquelas de médio porte, voltaram a viven-ciar no mês de fevereiro uma realidade ainda mais difícil no trânsito após o retorno às aulas. O aumento do número de carros nas vias urbanas com o início das atividades escolares é um acontecimento previsível, com data certa para começar, todos os anos. Mas a previsibilidade não nos livra do caos.

A pergunta que devemos fazer é: os órgãos de controle do trânsito têm se preparado adequadamente para organizar e minimizar o impacto dessa entrada em massa de veículos no nosso cotidiano? As gestões nas cidades têm feito a sua lição de casa?

Na minha cidade, o Recife, a resposta para esta pergunta, infelizmente, é não. No começo de fevereiro manchetes de jornais, reportagens na tevê e flashes ao vivo nas rádios noticiavam o que parecia ser uma calamidade pública, a volta de 250 mil carros particulares às ruas. Algo comparável aos alagamentos que também afligem a capital pernambucana. Isso quando os dois fenômenos não se conjugam: trânsito e chuva.

O início das aulas marcou o encontro do Recife com sua realidade cotidiana, a de uma cidade travada. Com uma população de mais 1,6 milhão de habitantes, a capital pernambucana tem o trânsito mais congestionado do Brasil e o terceiro pior da América do Sul, de acordo com o levantamento realizado pela empresa TomTom Traffic. Na América do Sul, apenas Bogotá, na Colômbia, e Lima, no Peru, apresentam níveis piores de engarrafamento. Hoje, a cidade tem 712,5 mil veículos registrados, dentre automóveis, veículos de carga (caminhões e caminhonetes), ônibus e motocicletas.

transporte público – ônibus, trens e metrô que poderia contribuir para tirar os carros particulares da rua, parou no tempo, maltratando o passageiro com um sistema precário, desconfortável e caro. Pesquisa realizada no fim de 2019 pelo Moovit, um aplicativo que indica horários de circulação do transporte público, mostra que os usuários de ônibus e metrô do Recife são os que perdem mais tempo, num comparativo entre dez regiões metropolitanas do País.

Os recifenses esperam, em média, perto de 25 minutos até conseguir embarcar para ir de casa ao trabalho ou à escola, o que coloca a cidade na sétima posição no ranking mundial de tempo perdido em deslocamentos no transporte público.

No Brasil, o tempo desperdiçado nos trajetos casa-trabalho-casa rende um prejuízo de mais de 111 bilhões de reais à economia, aponta um estudo encomendado pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro. O valor é referente ao que deixou de ser produzido na economia em razão do tempo perdido – 114 minutos em média – por mais de 17 milhões de trabalhadores. Este número, por si só, revela o equívoco do estímulo que ainda se dá à aquisição do carro próprio em detrimento de mais investimentos no transporte público.

A receita para um trânsito saudável e civilizado está dada há ao menos duas décadas: educação e conscientização, transporte público decente e mais investimentos na infraestrutura de ciclo-vias, ciclofaixas e outros modais alternativos, a exemplo do tráfego por rios. E aqui cito novamente o caso do Recife, que há anos sonhou com a possibilidade de ter seus cidadãos se locomovendo pelo Rio Capibaribe com a implantação de um projeto de navegabilidade que custou 77,59 milhões de reais aos cofres públicos (entre recursos da União e do estado), mas que está parado e com ares de completo abandono.

A péssima qualidade do trânsito no Brasil é um problema de falta de gestão, de ausência de visão e, no fim das contas, de aprofundamento de desigualdades. Sem transporte público eficiente os cidadãos não vão e não chegam.

0 estudo DesigualdadesSocioespaciais de Acesso a Oportunidades nas Cidades Brasileiras – 2019, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento, escancara essa questão. Os resultados obtidos pelo Ipea e o ITD apontam que a periferia é que paga a conta. E nela onde moram os excluídos das oportunidades, porque, em geral, o transporte público e as ciclofaixas não chegam. E, por consequência, as oportunidades de emprego, saúde e lazer também não são oferecidas de forma igualitária, num ciclo perverso e viciado.

Não podemos esquecer que o transporte é um direito e, também, um meio de o cidadão acessar outros direitos. Nosso crescimento pessoal e profissional e nossa qualidade de vida ficam comprometidos com uma realidade cotidiana de ruas travadas. 0 trânsito também pode congestionar as nossas vidas.. redacao@cartacapital.com.br

Fonte: Carta Capital

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