Pesquisas indicam que sono na direção pode ser tão perigoso quanto álcool

EVERTON LOPES BATISTA

O arquiteto Rodrigo de Castro Dantas Cavalcante, 36, dormiu ao volante quando voltava com seu carro da casa de um amigo. Acordou após bater de frente com a mureta de concreto que divide duas avenidas na zona sul de São Paulo.

“Eu estava sobrecarregado de trabalho, havia dormido apenas duas horas na noite anterior”, conta o arquiteto. O acidente aconteceu em uma madrugada de 2011. “Sabia que estava com sono, mas não me preocupei.”

Ele teve ferimentos no rosto e rompeu ligamentos do joelho. Foram necessários seis meses de fisioterapia para a recuperação de todos os movimentos. Cavalcante voltou a dirigir e diz que, agora, sempre para ao sentir sono.

Em alguns casos, os efeitos de uma noite maldormida são comparáveis à embriaguez. O tempo de reação de uma pessoa sonolenta chega a ficar até três vezes maior, mostram estudos do Cemsa (Centro Multidisciplinar de Acidentes e Sonolência).

“Após 19 horas acordado, o motorista experimenta efeitos semelhantes ao de ter ingerido seis copos de cerveja”, diz Marco Túlio de Mello, diretor técnico do Cemsa.

De acordo com Mello, dados demonstram que dormir duas horas a menos do que o habitual já resulta em problemas de atenção e de coordenação, que afetam a capacidade de tomar decisões.

“As pessoas se preocupam com o consumo de álcool e o uso do celular ao volante. Esses fatores prejudicam a direção, mas o sono é tão perigoso quanto eles”, afirma Gilmar Fernandes do Prado, presidente da ABN (Academia Brasileira de Neurologia).

DE OLHOS BEM ABERTOS

Quem dorme pouco tem mais risco de se envolver em acidentes

Estudos da AAA (American Automobile Association) concluíram que 16,5% dos acidentes fatais nas estradas norte-americanas são causados por um motorista com sono; segundo a entidade, quem dirige após dormir menos de 7 horas em uma noite tem o dobro de chances de se envolver em um acidente de carro

Acidentes causados por sonolência são mais comuns de madrugada ou no início da tarde, entre 14h e 16h

De acordo com a ABN (Academia Brasileira de Neurologia), grande parte de acidentes causados por sonolência envolvem um carro apenas, que sai da estrada sem que o motorista tente usar o freio

As pessoas que correm mais risco de se envolver em acidentes causados pelo sono são os motoristas profissionais, pessoas com transtornos de sono não diagnosticados e adultos com crianças em casa, segundo a ABN

De acordo com levantamento feito pela entidade -que ouviu 495 motoristas-, 75% dos entrevistados reconheceram dormir menos do que acham necessário. A ABN estima que 20% dos acidentes de trânsito no país sejam causados por sono e cansaço.

As consequências são graves: ao cochilar enquanto dirige, o motorista tende a manter o pé no acelerador, o que faz a velocidade ser constante ou aumentar. Isso eleva a gravidade das colisões.

Para Dirceu Rodrigues Alves Júnior, da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), o sono deveria ser uma preocupação maior de legisladores. Ele critica a Lei 12.619, de 2012, que permite jornadas de trabalho de até 12 horas seguidas para motoristas profissionais, desde que seguidas por 36 horas de descanso.

“Dirigir por tanto tempo aumenta em até sete vezes as possibilidades de um acidente grave. Os movimentos e o barulho dentro de um carro contribuem para que o motorista pegue no sono, é como um bebê sendo embalado no colo da mãe”, diz Júnior.

PREVENÇÃO

Além de medidas de prevenção clássicas, como a parada para o café seguida de um cochilo de 20 minutos, os especialistas sugerem ainda que, no caso de viagens mais longas, a alimentação seja feita em quantidades menores e com maior frequência.

No último dia 16, uma parceria entre a ABN, a Abramet, o Cremesp (conselho de medicina de SP) e a Artesp (agência de transporte de SP) lançou a campanha “Não dê carona ao sono”.

A iniciativa prevê ações educativas e pesquisas sobre o tema. Mais informações estão disponíveis na página naodecaronaaosono.com.br.

Banco inteligente e sensores protegem o motorista contra o cochilo no volante

Uma poltrona desenvolvida para ônibus e caminhão, que deve chegar ao mercado no segundo semestre deste ano, evita que o motorista cochile.

O assento, produzido pelo Cemsa (Centro Multidisciplinar em Sonolência e Acidentes) em parceria com as empresas Marcopolo e TWE, funciona conectado a um aplicativo de celular que coleta informações do condutor e monitora quantas horas ele dormiu antes de pegar a estrada.

O sistema lê os dados e programa a liberação de jatos de ar frio nos pés do motorista ou emite avisos sonoros para acordá-lo.

“A poltrona é confortável, mas incomoda quando é preciso”, diz Marco Túlio de Mello, diretor do Cemsa.

Mello também é o idealizador de um sonômetro que promete medir a fadiga a partir do desequilíbrio detectado por uma balança.

É necessário ficar 30 segundos sobre um plataforma, com o olhar fixo em um ponto adiante, para que o equipamento funcione.

Desde 2009, carros da Mercedes-Benz trazem um detector de fadiga que alerta o motorista com base no seu padrão de direção.

A Volkswagen também tem dispositivos parecidos em seus veículos mais caros.

Sensores que leem as faixas pintadas no asfalto e fazem o volante tremer caso o automóvel invada a pista ao lado também ajudam a manter o motorista atento. Versões mais equipadas do Chevrolet Cruze e do Ford Fusion e modelos da sueca Volvo têm esse item.

 

VIA: http://www.antp.org.br/

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