Passageiros trocam ônibus por bicicletas e aplicativos, acentuando a crise no setor

Como alternativa para o transporte público coletivo, passageiros têm trocado os ônibus por outros modais, como bicicleta, patinete elétrico c carros de aplicativo.

Um levantamento feito pelas empresas que realizam o transporte público na Grande Vitória mostrou que 2,6 milhões de passageiros deixaram de usar ônibus nos últimos cinco anos. Por conta disso, 120 coletivos pararam de circular entre 2014 e 2019.

“E extremamente significativo e impactante para o sistema. Tivemos um processo de enxugamento, com redução do número de ônibus por conta dessa queda monstruosa. É uma conta que não fecha”, afirmou o diretor-executivo do Sindicato das Empresas de Transporte Metropolitano da Grande Vitória (GVBus), Elias Baltazar.

Em audiência judicial para tratar do aumento de salário dos motoristas, as empresas citaram até mesmo a popularidade dos patinetes e das bicicletas para explicar a crise. De fato, muitos passageiros já estão deixando os ônibus para pedalar em busca de mais segurança e agilidade no deslocamento.

“Mesmo com pouca ciclovia, me sinto mais seguro na bicicleta do que no ponto e no ônibus. Além disso, o custo é menor e a distância compensa”, afirmou o analista de tecnologia da informação, Camilo Grobério.

Essa migração do transporte coletivo para o individual foi observada pelas empresas a partir de 2014, dois anos antes do Uber chegar a Vitória e das primeiras bicicletas de aluguel começarem a rodar.

Para o GVBus, essa baixa de passageiros também se deu por conta da crise econômica, do desemprego, dos congestionamentos e da falta de segurança pública.

O cenário do Espírito Santo é parecido com o nacional, como constatou o Anuário 2018-2019 da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU). Neste período, houve uma redução de 25,9% dos passageiros pagantes no País.

Apesar da queda, no final de 2018 foi observada uma estabilização na redução de passageiros, com uma leve recuperação de 3,6% em relação ao ano anterior.

Governo faz melhorias para atrair mais usuários

Visando atrair mais passageiros para os ônibus, as empresas voltaram a investir em tecnologia e conforto após acordo feito com o governo do Estado. A última entrega de veículos novos havia sido feita em 2014.

Entre as medidas estão a renovação de frota, a colocação de ônibus com ar-condicionado e a disponibilidade de wi-fi dentro dos coletivos.

De acordo com o governo do Estado, já são 100 ônibus com ar-condicionado. Ao todo, a promessa é de que 600 veículos climatizados estejam em operação até 2022, contemplando todas as linhas trancais, ou seja, as que vão de um terminal a outro.

Além dessas mudanças, foi lançado o cartão GV e novas formas de compra de crédito. Além dos ônibus do Transcol, o cartão também é aceito nos coletivos dos sistemas municipais de Vitória e Vila Velha.

O objetivo é integrar os sistemas, que futuramente serão um só. A expectativa é de que, no próximo ano, o passageiro possa descer de um ônibus municipal de Vitória e embarcar no Trascol, por exemplo, pagando somente uma passagem.

Além disso, a expectativa do GVBus é de melhoria na segurança dos passageiros com ações como a expansão das roletas altas, a criação da Delegacia Especializada de Crimes Contra Transportes de Passageiros e as blitze. De acordo com o sindicato das empresas, o número de assaltos caiu 49,2% em 2019.

“Entre janeiro e setembro deste ano, foram registrados 184 assaltos. No mesmo período do ano passado, a marca foi de 362 ocorrências”, informou o GVBus, em nota.

O sindicato das empresas afirma que a expectativa é de que os passageiros voltem a usar o sistema Transcol.

“Esperamos que, com os investimentos que estão sendo feitos pelas operadoras no sistema desde o final de 2018 e esse ano, os moradores da Grande Vitória voltem a andar de ônibus. Isso será bom para o sistema e também para a mobilidade urbana da região metropolitana”, informou o GVBus por meio de nota.

MOBILIDADE URBANA

Acordo evita greve dos ônibus

Após três dias de negociação e confusão entre os próprios rodoviários, o Sindicato dos Rodoviários do Espírito Santo desistiu da greve. Com isso, a promessa da categoria é de que os ônibus circulem normalmente na Grande Vitória.

A categoria dos trabalhadores entrou em acordo com os empresários no início da noite de ontem, em audiência mediada pelo Ministério Público do Trabalho.

Trabalhadores e empresários aceitaram a proposta do Tribunal Regional do Trabalho, que sugeriu aumento salarial de 3,04% e R$ 1 a mais por dia no tíquete-alimenta-ção, que passa a ser de RS 29,01por dia. Atualmente, o salário dos motoristas é de RS RS 2.330.

O presidente do Sindirodoviá-rios-ES, José Carlos Sales, afirmou que a categoria esperava um aumento maior, mas diz ter agido com “responsabilidade” ao aceitar a proposta e cancelar a greve.

“Foi uma negociação cansativa. Não ficamos felizes com o resultado, mas sabemos que é o que a gente podia fazer diante da situação. E questão uma de responsabilidade (com a população)”, ressaltou Sales.

Apesar do reajuste ter ficado acima do que as empresas estavam

oferecendo (2,54%), os empresários ficaram satisfeitos com o desfecho.

“Por conta das condições econômicas do sistema, nossa intenção não era sair do índice inflacionário. Não foi uma decisão unânime (entre os empresários), mas a maioria compreendeu”, afirmou o diretor-executivo do GVBus, Elias Baltazar.

CONFUSÃO

A última assembleia para votar a proposta feita pela Justiça terminou em confusão. Isso porque um grupo de motoristas e cobradores contestou o resultado oficial anunciado pelo Sindirodoviários-ES, de que a categoria aprovou a proposta e decidiu por cancelar a greve.

Houve muito bate-boca e em-purra-empurra na saída da assembleia. A Polícia Militar chegou a ser acionada e enviou ao local duas viaturas. O presidente do sindicato, José Carlos Sales, saiu sob protesto.

“A votação foi fraudada pelo presidente. A maioria recusou a proposta. Nós queríamos um reajuste justo”, disse um motorista, que pediu para não ser identificado com medo de represálias.

Sales negou irregularidades. “Minha consciência está tranquila de que a maioria aprovou”, disse.

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