Para a Serttel a ciclovia é o caminho do crescimento

O Brasil, você já deve ter se dado conta, vive uma febre de ciclofaixas. As pistas reservadas às bicicletas já alcançam 440 quilômetros em Brasília, 380 quilômetros no Rio de Janeiro e 356 em São Paulo. A tendência se repete pelo mundo. O número de cidades com sistemas de aluguel de bicicletas pulou de 600 para 900 nos últimos três anos.

Por aqui, ninguém soube aproveitar tão bem a ampliação das ciclofaixas quanto o grupo pernambucano Serttel, fabricante de tecnologias para mobilidade urbana, fundado há três décadas pelo engenheiro Angelo Leite.

A Serttel administra o compartilhamento de bicicletas em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras oito cidades. Com o impulso das bikes, a empresa mais do que triplicou de tamanho em cinco anos e faturou 180 milhões de reais em 2014 — 54 milhões deles só com o aluguel de bicicletas.

A Serttel se destacou ao resolver dois problemas desse tipo de serviço — a manutenção exigida pelo uso intenso das bicicletas e o alto índice de roubo. Para baratear a manutenção, montou uma fábrica de bicicletas na zona norte de São Paulo que usa câmbios especiais e peças reforçadas. E, como os usuários precisam digitar o número de seu cartão de crédito para usar as bicicletas, os casos de roubo são raros.

As inovações fizeram Leite ganhar notoriedade entre governos, ativistas e organizações que elaboram políticas de mobilidade. Nada que ele pudesse prever há alguns anos, e muito menos em 1987, quando fundou a Serttel com um colega da faculdade de engenharia com o objetivo de consertar telefones públicos — os orelhões.

Só cinco anos mais tarde eles começaram a prestar atenção em problemas de trânsito, ao saber que o Detran de Pernambuco precisava de um sistema para controlar o tempo de abertura dos semáforos. “Aquilo não tinha nada a ver com meu negócio”, diz Leite. “Mas achei que seria capaz de criar uma solução.”

Ele desenvolveu a tecnologia e o Detran comprou. Em seguida, a Serttel participou de uma licitação para fazer a manutenção dos semáforos de ­Reci­fe. Conseguiu oferecer o menor preço graças a inovações como trocar caminhões de reparos por Kombis.

O negócio de bicicletas começou em 2009, em parceria com a prefeitura do Rio de Janeiro. “Participei da licitação por curiosidade”, diz Leite. “Achei que os concorrentes fossem empresas europeias especializadas.” Mas nem os europeus nem ninguém se habilitou. Leite teve seis meses para montar o serviço.

Às pressas, visitou cidades do exterior e se inspirou no programa ­Vé­­lib, de Paris, criado em 2007. ­ASert­­tel era responsável por todo o investimento e tinha de pagar taxas pelo uso do espaço urbano. Mas poderia conseguir um patrocínio, do qual repassaria uma porcentagem para a prefeitura.

O apoio demorou dois anos, e a empresa arcou sozinha com 2,5 milhões de reais em investimentos. Só entrou no azul quando conseguiu o patrocínio do Itaú. O acordo com o banco foi intermediado pelo apresentador Luciano Huck, que se interessou pelas bicicletas e virou sócio da Serttel através de seu fundo de investimento, o Joá — ele tem 50% da Samba, o braço de aluguel de bicicletas da Serttel.

Depois do Rio, a parceria com o Itaú foi estendida para oito cidades. Em Aracaju há um arranjo semelhante com a NET; e em Fortaleza, com a ­Unimed. No ano passado, a Serttel ganhou licitações em Buenos Aires e em ­Rosário, na Argentina. Agora, aguarda a abertura de concorrências no ­México e na Colômbia.

Depois das bicicletas, Leite viu que havia novas oportunidades a ser exploradas no crescente mercado de mobilidade urbana. Hoje, a empresa fornece vários tipos de serviço de tráfego, incluindo gerenciamento de parquímetros eletrônicos, medição de fluxo de veículos e serviços de orientação de tráfego.

Para dar conta de tantos negócios, ele dividiu a Serttel em diversas empresas. A menina dos olhos é mesmo a Samba, que gera a maior parte das receitas. Mas há outras unidades promissoras, como a Mobilicidade, que cria aplicativos para o pagamento de pedágios e estacionamentos públicos e de shoppings em oito cidades e já fatura 9 milhões de reais.

Mercado em expansão

Há alguns buracos no caminho da Serttel. Um deles é depender de licitações públicas. O contrato com a prefeitura de São Paulo, que mantém mais de 200 estações de bicicletas na cidade, expirou em maio após três anos de vigência. A prefeitura abriu licitação para definir se a Serttel continuará a operar o sistema ou se outra empresa vai assumi-lo (o resultado deve sair nos próximos meses).

A concorrência tende a aumentar no Brasil. Na Europa, o mercado de aluguel de bicicletas virou um negócio de multinacionais. É o caso da Clear Channel, maior empresa de publicidade em outdoor e de emissoras de rádio nos Estados Unidos. A companhia, que fatura mais de 6 bilhões de dólares ao ano, opera sistemas de bicicletas em sete países.

Seu principal mercado é Barcelona, onde cerca de 10% da população paga 24 euros por ano para usar a rede de mais de 200 quilômetros e 413 estações, um dos maiores índices de uso na Europa. Para fazer frente à concorrência, a Serttel está se preparando para receber novos investimentos que lhe deem fôlego para chegar a mais cidades e para continuar investindo em novos serviços.

Em Recife, a empresa está testando o compartilhamento de carros elétricos em parceria com o parque tecnológico do município, o Porto Digital. Por enquanto, estão circulando três carros com autonomia de 120 quilômetros da fabricante chinesa Zhidou.

O mercado de serviços para mobilidade urbana deve crescer mais de 1 000% no Brasil em dez anos, segundo cálculos da consultoria Navigant Research. ­Espaço para crescer, portanto, não há de faltar para a Serttel.

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