OUÇA: Brasil deve ter novo ônibus híbrido com etanol e UNICA contesta estudo sobre Ozônio

De acordo com associação da indústria de cana de açúcar, uso do combustível não pode ser associado ao aumento do O3 em São Paulo

ADAMO BAZANI

O Brasil pode ter em breve um novo modelo de ônibus híbrido, movido com etanol e eletricidade, além do desenvolvimento de um ônibus Flex, com dois combustíveis sendo um deles, o etanol.

A informação é do consultor de meio ambiente, emissões e tecnologia da UNICA – União da Indústria de Cana de Açúcar, Alfred Szwarc, que conversou com exclusividade na semana passada, com o Diário do Transporte, em São Paulo.

“Novas configurações poderão surgir num futuro próximo, como um ônibus bicombustível, operando com diesel e etanol, ou ônibus híbrido a etanol. Existe este espaço nos sistemas brasileiros e estas tecnologias estão ou estarão disponíveis, havendo obviamente demanda por elas” – disse Szwarc

O consultor defendeu que a cidade de São Paulo deve pensar na possibilidade de ampliação do uso do ônibus a etanol, principalmente após a licitação dos transportes, cuja publicação do edital depende justamente da reformulação de um cronograma de redução de emissões de poluentes pela frota das linhas municipais, em debate na Câmara Municipal.

Apesar da má imagem que os ônibus a etanol têm entre os operadores de transportes na cidade de São Paulo (de uma frota de 50 comprada em 2011, só nove estão operando com o combustível), Alfred Szwarc disse que a tecnologia é viável para diversas linhas da cidade.

“Em termos de desempenho, os ônibus a etanol atendem as necessidades que a correta aplicação deles permite. Cada tipo de veículo tem uma aplicação diferente. A gente precisa primeiro respeitar essa premissa. Temos vários exemplos, como Estocolmo, com uma frota de mais de 600 ônibus a etanol semelhantes aos colocados em São Paulo em 2012, onde não há nenhum problema de desempenho em comparação com equivalentes a diesel ou gás natural. Com relação a questão do consumo, temos de pensar o seguinte: no consumo energético, o etanol é equivalente ao do óleo diesel. Mas a gente não compra combustível por conteúdo energético, mas por volume. Em termos de consumo volumétrico, o etanol chega a ser o dobro do óleo diesel” – explicou.

Na Suécia, ônibus a etanol usam combustível brasileiro

Szwarc afirmou que os problemas de desempenho e consumo alegados pela empresa de ônibus que se desfez dos veículos a etanol têm relação com a “manutenção inadequada” ao longo da operação e não com o veículo ou combustível.

A mesma linha foi defendida pela fabricante do modelo de ônibus, Scania. Durante o evento de comemoração do aniversário de 60 anos de Scania no Brasil, em abril, o diretor de Vendas de Ônibus da marca, Silvio Munhoz, também responsabilizou a manutenção dos veículos pelos problemas operacionais.

“Chegamos a ter 50 ônibus a etanol. Hoje temos nove, mas o problema foi a baixa qualidade de manutenção feita neles. Nos dois primeiros anos, no contrato de manutenção que atuávamos nas garagens, não havia problemas. A manutenção do etanol é mais delicada e frequente que do diesel, não pode ser feita de qualquer jeito. Por exemplo, a troca de óleo lubrificante nos ônibus diesel é a cada 30 mil quilômetros. No ônibus a etanol, é a cada 10 mil quilômetros. Ocorre que após o fim do contrato, foram as prestadoras que começaram a cuidar da manutenção e aí começamos ver problemas” – contou na ocasião. Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2017/04/12/scania-60-anos-r-29-bilhoes-em-investimentos-onibus-a-gnv-na-zona-oeste-de-sao-paulo-e-100-onibus-rodoviarios-de-15-metros-biarticulado-da-marca-em-curitiba/

O consultor da UNICA defendeu o fato de o etanol poluir menos que o diesel e, com isso, contribuir para a redução de gastos com saúde, o que é, segundo Szwarc, um ganho que deve ser levado em conta pelo poder público na hora de calcular os custos do sistema de transportes e decidir pela criação de incentivos também para esta alternativa menos poluente.

ESTUDO INTERNACIONAL:

Alfred Szwarc contestou um estudo internacional, com base em índices de poluição na cidade de São Paulo que sugere que o maior uso do etanol contribuiu para o aumento de concentrações de Ozônio O3, que é prejudicial à saúde humana.

O estudo publicado na Revista Nature do pesquisador da Universidade Nacional de Cingapura, Alberto Salvo e do físico- químico da Universidade Northwestern, Franz Geiger, indica que o etanol usado em veículos pode causar problemas ambientais que vão muito além do plantio e queima do que restou da colheita da cana-de-açúcar.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores internacionais analisaram a situação de São Paulo.

De acordo com o trabalho, de 2009 a 2011, houve uma elevação no preço do etanol enquanto que o governo mantinha política de controle de preços dos derivados de petróleo para conter a inflação. As pessoas começaram a consumir mais gasolina de novo. O uso do combustível à base de petróleo subiu de 42% para 68% entre os veículos leves.

Ainda de acordo com o monitoramento dos pesquisadores, enquanto o consumo do etanol nos veículos estava alto, também aumentou a quantidade de Ozônio – O3, que é um poluente urbano que pode causar graves problemas respiratórios. O ozônio O3 se forma quando a luz solar desencadeia reações químicas envolvendo hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio emitidos pelos veículos.

Swarc alega que a metodologia usada no estudo não pode ser considerada a mais adequada e diz que uma continuação da análise dos dados ambientais da época do levantamento, mostra que o etanol pode reduzir o poluente.

“Os dois pesquisadores usaram técnicas econométricas que não são usuais em estudos de meio ambientais e chegaram ao resultado de que o uso mais intenso de gasolina resultaria na redução dos níveis de ozônio aqui da atmosfera de São Paulo. Mas uma revisão deste estudo indicou que estes resultados não representam a realidade. O uso do etanol é muito melhor neste aspecto. Então, os dados que nós dispomos e isso foi estabelecido numa carta enviada aos autores, é de que estes resultados iniciais não correspondem à realidade. Posteriormente, estes mesmos autores utilizando as mesmas técnicas fizeram um estudo com relação a partículas ultrafinas na atmosfera. Neste caso, eles identificaram que o uso mais intenso de etanol reduz a presença destes poluentes na atmosfera em até 30%, o que é uma excelente notícia e compactuam com registros que a USP – Universidade de São Paulo tem sobre redução de poluição pelo uso do etanol” – explicou.

Mecanização da colheita da cana de açúcar diminui impactos ambientais, segundo consultor da ÚNICA

O consultor da UNICA ainda diz que a produção da cana de açúcar está menos poluente, com menor nível de queimadas.

“O principal produtor no Brasil de etanol, que é São Paulo, respondendo por 60% do mercado, praticamente baniu as queimadas. Hoje, praticamente 95% da colheita no Estado de São Paulo são automatizados” – disse Alfred Swarc que ainda citou ganhos de produtividade, novas variedades de etanol, uso menos agressivo do solo com menos erosão, economia no consumo de água, redução das emissões industriais e produção de biogás a partir de vinhaça.

OUÇA A ENTREVISTA:

ALFRED-SWARC-ADAMO-BAZANI

HISTÓRIA DO ÔNIBUS A ETANOL NO BRASIL:

Pinguinha da Urubupungá, o primeiro ônibus a etanol do Brasil

O ano era 1979. Diante da crise internacional do petróleo e da recente criação Pró-Álcool – Programa Nacional do Álcool (em 14 de novembro 1975), ganhava as ruas da Grande São Paulo um Monobloco Mercedes-Benz O-364, movido com álcool aditivado. Apelidado de “Pinguinha da Urubupungá”, o ônibus era diesel e foi convertido para o combustível feito a partir da cana de açúcar. O O-364 circulou por alguns meses, na linha intermunicipal Ponte Pequena – São Paulo X Barueri, pela Viação Urubupungá. Começou bem, mas após alguns meses, passou a apresentar problemas e a ideia da produção em massa de ônibus a etanol foi engavetada.

Metra chegou a operar com o primeiro ônibus do Projeto BEST, uma tentativa de implantar ônibus a etanol em vários países

Passados 27 anos da primeira experiência, em 2006, o Brasil integrava o Projeto BEST – BioEthanol for Sustainable Transport, um acordo internacional para diminuição da poluição global com base no uso do etanol em ônibus. Também integravam o Projeto BEST, Estocolmo (Suécia), Madri e País Basco (Espanha), Roterdã (Holanda), La Spezia (Itália), Somerset (Reino Unido), Dublin (Irlanda) e Nanyang (China). No Brasil, desenvolvido pelo Centro Nacional de Referência em Biomassa (CENBIO), do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), o Projeto BEST teve como fruto um ônibus Scania K 270UB de carroceria Marcopolo Viale, apresentado em 23 de outubro de 2007, que circulou pelo Corredor Metropolitano ABD, operado pela Metra, entre São Mateus, na zona Leste da cidade de São Paulo, e Jabaquara, na zona Sul, passando por municípios do ABC Paulista. A Metra não faz mais uso deste ônibus, que atualmente transporta funcionários dentro da planta da Scania, em São Bernardo do Campo.

A Scania passou a investir neste tipo de veículo para o Brasil. Em seu país-sede, a Suécia, a montadora produz ônibus a etanol desde 1985.

Na onda do Projeto Best e diante da aprovação da Lei 14933, conhecida como Lei de Mudanças Climáticas, que hoje é alterada pela Câmara Municipal porque não foi cumprida, a Scania, em 2009, apresentava seu primeiro ônibus nacional a etanol para testes na capital Paulista, no dia em 12 de novembro. O veículo operou pela Viação Gato Preto.

Em 25 de novembro de 2010, a prefeitura anunciava a compra por empresas da Capital Paulista, de 50 ônibus a etanol em junho de 2011.

Frota de ônibus a etanol apresentada em 2011 no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo. Maior parte dos ônibus foi convertida depois a diesel

Agora, em 2017, operam apenas nove destes veículos. A empresa que tinha estes ônibus (a Mobibrasil, na época da apresentação se chamava VIM – Viação Metropolitana) passou os veículos para a Tupi – Transportes Urbanos Piratininga, que também opera na zona Sul de São Paulo. Dos 50 ônibus, nove continuam como etanol, 40 foram convertidos para diesel e um foi destruído num incêndio por um ataque de criminosos.

Neste caminho, em parceria com a Itaipu Nacional, a Eletra, de São Bernardo do Campo, apresentou em 2010 um ônibus híbrido com um motor elétrico e outro a etanol. Mas o projeto foi descontinuado.

Ônibus Híbrido (Elétrico e Etanol) parceria da Eletra e Itaipu

Já no dia 18 de março de 2011, a Sambaíba Transportes Urbanos, empresa de ônibus que opera na Zona Norte de São Paulo, apresentou um lote inicial de um total previsto de 71 ônibus Flex, movidos a etanol e a diesel, modelo Caio Millennium II, Mercedes Benz O 500 M / 1726 Flex. Mas a operação flex logo foi descontinuada.

Em 2011, Sambaíba, da Capital Paulista, apresentava frota de ônibus bicombustíveis, mas o uso se restringiu ao diesel

Diante da primeira “decepção” do Pinguinha da Urubupungá, de 1979; do desinteresse da Metra em continuar operando com a tecnologia do primeiro ônibus do Projeto BEST de 2007, das alegações de problemas de desempenho e consumo feitas pela Mobibrasil de São Paulo que se desfez desta frota, e da descontinuidade do projeto Itaipu/Eletra; o ônibus a etanol tem futuro no Brasil? As opiniões são divididas.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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