Mobilidade preocupa mais que crimes

Para uma cidade que anualmente leva quase dois milhões de pessoas à praia de Copacabana na festa de Réveillon, o desafio de garantir a presença de 1.500 atletas, 100 chefes de Estado e um público de mais de 50 mil pessoas à festa de abertura da Olimpíada não deveria assustar. Mas, mais do que os riscos de terrorismo, manifestações e assaltos, o que preocupa a Comissão de Segurança Pública e Defesa Civil, que reúne representantes de mais de dez órgãos das três esferas de governo para cuidar da segurança dos Jogos, é a mobilidade. O atraso de uma delegação pode ser um grande incidente.

“É uma operação complexa. E não só na abertura. Serão 30 mil deslocamentos para áreas de treinos e jogos. Só no dia 12 de agosto, haverá 70 competições simultâneas”, diz o secretário extraordinário de segurança para grandes eventos do Ministério da Justiça (Sesge), Andrei Augusto Passos Rodrigues.

Mais de 10 mil homens da Força Nacional farão a segurança da Olimpíada de 2016. O custo de mobilização de todo esse contingente – que obrigará a Secretaria Nacional de Segurança a dobrar o cadastro de pessoal treinado – ainda está sendo fechado.

Nos doze meses até o início dos jogos, porém, apenas dois dos mais de dez órgãos das três esferas de governo envolvidos na segurança do evento, estimam investir mais de R$ 600 milhões, mais que o dobro do orçamento de R$ 250 milhões previsto pelo Comitê Rio 2016, braço do Comitê Olímpico Internacional (COI) responsável pela organização dos Jogos.

No período recente, será a primeira vez que a segurança de uma Olimpíada será feita integralmente por forças públicas. Fruto de um acordo do governo brasileiro com o Comitê Rio 2016, a decisão compensa recursos que a União ficou de repassar para a organização no dossiê de candidatura, mas depois das manifestações de 2013, e no atual cenário fiscal do país, provavelmente seriam objeto de fortes críticas. Dá aos organizadores também mais segurança depois do trauma de Londres, em 2012. Contratada para fazer a segurança, a maior empresa privada do mundo, a G4S, desistiu semanas antes da cerimônia de abertura.

“Nossas estimativas indicam que poderemos prover os serviços com melhor qualidade e menor custo”, diz o titular Sesge.

Entre os envolvidos, o discurso unânime é que não são gastos, mas investimentos, já que a maior parte dos recursos será revertida em infraestrutura, equipamentos, novos protocolos e pessoal treinado, e não apenas para o Rio e sim para todo o país.

“É um processo que trouxe oportunidade de amadurecimento para as áreas de segurança. Estamos construindo um processo de integração”, diz Rodrigues.

Os dois órgãos que estimam investir mais de R$ 600 milhões nos próximos 12 meses são a Sesge e a Secretaria de Segurança do Estado do Rio (Seseg).

Esse dinheiro complementa os recursos aplicados até agora, e que ajudaram o Rio – e o país – a se preparar para a série de eventos que se sucederam desde 2007: Pan Americano, Rio + 20, Jogos Militares, Jornada Mundial da Juventude, Copa das Confederações e Copa do Mundo.

Desde 2007, estima-se que investimentos como a construção dos 15 Centros Integrados de Comando e Controle (CICC) consumiram cerca de R$ 1,1 bilhão da União. No Rio de Janeiro, a aplicação de cerca de R$ 700 milhões já ajudou a aparelhar as Policias Civil e Militar. Só a implantação de um sistema de rádio digital para as polícias consumiu R$ 126 milhões.

O Rio passou de uma situação em que tinha seis aeronaves, mas sem imageador (câmera que faz imagens aéreas), em 2009, para 13 aeronaves, com três imageadores. Até 2016, haverá mais uma aeronave com imageador.

“Não tivemos um orçamento para o evento. Não há um investimento que tenha sido feito que não se justifique no dia a dia da cidade. Tudo foi feito pensando nas necessidades das instituições”, Subsecretário Extraordinário de Grandes Eventos do Estado do Rio, Roberto Alzir.

Nesta semana, a Comissão formada por todos os órgãos envolvidos na operação está dedicada a fechar o orçamento e a matriz de responsabilidades.

O anúncio deve ser feito amanhã, mas algumas decisões já estão tomadas. A Sesge coordena as ações e interage com o Comitê Rio 2016, a Seseg do Rio de Janeiro cuida da segurança da cidade, a Agência Brasileira de Informações (Abin) é responsável pela inteligência, a Polícia Federal atuará com a segurança de chefes de Estado e outras atividades que exijam articulação internacional.

“Todas as operações demandam trabalho integrado. O que facilita é que a maior parte desse grupo trabalha desde 2007 e já se conhece muito bem”, resume o subsecretário do Rio.

A maior mobilização será mesmo da Força Nacional, ligada a Secretaria Nacional de Segurança Pública, que cuidará da segurança dos equipamentos olímpicos, das competições e das delegações. Parte do contingente de 10 mil homens atuou em eventos anteriores, como a Copa, considerada pela comissão como uma amostra do desafio que será a Olimpíada.

Com 13 mil profissionais cadastrados, entre policiais civis, militares, bombeiros e peritos, e 29 operações em 23 estados, a Força Nacional está correndo para ampliar o número de cadastrados.

“Queremos dobrar o número. O Brasil tem um milhão de profissionais nas categorias (policiais, bombeiros, peritos etc.). Não é assustador sair de 13 mil para 26 mil”, afirma a Secretária Nacional de Segurança, Regina Miki.

Segundo ela, os treinamentos estão sendo feitos nas localidades que fornecerão as equipes, para não desfalcar os Estados. Durante o evento, serão deslocados para o Rio ou para as seis cidades onde acontecerão os jogos de futebol. Na volta, levarão para seus Estados equipamentos que o governo optou por comprar, ao invés de alugar, e que vão reforçar polícias e penitenciárias, como aparelhos de raio-x e detectores de metais.

“Os equipamentos podem ficar obsoletos, mas a capacitação não. Esse é um dos maiores legados que vamos deixar para a população”, diz a secretária.

Além dos treinamentos, o grupo também tem trabalhado em protocolos para as mais diversas situações, o que não existia antes dessa série de eventos. Os órgãos aprenderam a trabalhar juntos nos CICC e também fora dele.

“Não tínhamos protocolos para acidentes com múltiplas vitimas, por exemplo. Nas manifestações, cada órgão tinha uma ação isolada. Reunimos os vários órgãos para otimizar e aprimorar o protocolo”, explica o subsecretário do Rio.

O mapeamento de riscos será refinado no período anterior ao início dos jogos. As áreas de inteligência estão atentas às peculiaridades geopolíticas de algumas delegações e emitem relatórios diários. Mas, por enquanto, o risco de terrorismo é considerado secundário. As maiores preocupações são manifestações e acidentes, inclusive pelo impacto que teriam na mobilidade, tema que tem tirado o sono da comissão de segurança, e que recebeu pesados investimentos nos últimos anos.

O Comitê Rio 2016 tem evitado comentar a questão da segurança, mas se mostra confortável com a decisão de transferir para o setor público a responsabilidade.

Em resposta ao questionamento do Valor, informou por meio de nota: “Com o planejamento integrado entre Comitê e Governos, nos sentimos confiantes que todos os aspectos que envolvem a segurança dos Jogos terão tratamento adequado pelas agências de segurança, inteligência e defesa nacional”.

Desafio é maior no dia a dia

Depois de uma melhora atribuída ao programa de Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP), o Rio de Janeiro viu, a partir de 2013, uma nova deterioração nos indicadores de segurança e na percepção das pessoas. A situação foi provocada principalmente pelo aumento de roubos nas rua e pela volta de confrontos entre policiais e traficantes, inclusive em áreas pacificadas, que no último trimestre voltaram a cair.

Como a maioria dos indicadores mostra melhorias em relação ao período pré-UPP, o subsecretário extraordinário de grandes eventos do Estado do Rio, Roberto Alzir, diz que o maior desafio na Olimpíada de 2016 é lidar com o imaginário da população, que enxerga a cidade como perigosa e violenta, apesar do histórico de grandes eventos praticamente sem incidentes graves.

“É mais fácil cuidar da segurança da cidade em um grande evento do que no dia a dia, quando não temos todos esses recursos humanos disponíveis. Nosso desafio é diminuir o antagonismo entre o imaginário e a realidade”, afirma.

No segundo trimestre, índices como o de roubos e homicídios dolosos, que vinha aumentando desde 2013, regrediram. Causam comoção, porém, episódios como o assassinato de um ciclista a facadas na Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais de cidade, ou de um entregador em uma comunidade na região central, morto supostamente pela polícia.

Mesmo assim, tanto as recorrentes denúncias de violência policial como de corrupção não têm conseguido enfraquecer a cúpula da polícia, que já soma mais de oito anos no poder. “O Rio é acolhedor, recebe turistas o ano inteiro. É o palco ideal para esse evento”, responde o titular da Sesge, quando questionado se a situação da segurança na cidade é um complicador a mais.

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