Mais transporte público, mais qualidade de vida

A 32ª edição do Seminário Nacional NTU 2018, realizada em São Paulo, foi marcada pelo diálogo em torno de questões que afetam as empresas operadoras, os governos e a sociedade como um todo. Logo na abertura do evento, o presidente executivo da Associação, Otávio Cunha, reforçou a importância do setor ao pleitear a inserção do tema transporte público na agenda dos próximos governantes.

“A nossa esperança é que a mobilidade seja colocada na pauta. O setor de transporte público por ônibus se antecipou e já entregou propostas para melhorias desse sistema aos representantes das principais candidaturas na corrida eleitoral à presidência da república”, disse.Otávio Cunha destacou ainda que os automóveis ocupam quase 60% do espaço viário urbano e levam apenas 20% dos passageiros transportados, enquanto os ônibus ocupam somente 25% do espaço viário para transportar cerca de 70% das pessoas. Carros e motos são responsáveis por 66% dos acidentes fatais, enquanto menos de 1% dos acidentes fatais envolvem passageiros de ônibus. “Então, por que não investir no transporte público? O que estamos esperando para economizar gastos públicos com saúde e destinar parte desses recursos economizados para melhorar o transporte público?”, indagou o presidente da NTU.

Transporte público e a agenda 2030 da ONU

Parte da programação do evento foi dedicada ao debate com especialistas sobre como o setor de transporte público pode ajudar o Brasil a atingir as metas globais de meio ambiente, saúde e sustentabilidade urbana, incluindo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, a chamada Agenda 2030, que reúne os compromissos assumidos pelo país perante a ONU e a comunidade internacional.

O assessor internacional em segurança viária da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Victor Pavarino, alertou para o aumento exponencial da mortalidade por acidentes de trânsito relacionada ao crescimento da motorização nos países em desenvolvimento, principalmente pelo crescimento da venda de motocicletas.

Somente no Brasil, de acordo com dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), a produção nacional saltou de aproximadamente 100 mil unidades por ano, em 1980, para quase 1 milhão/ano em 2017, com um pico de quase 2 milhões em 2010. A partir de 2008, os motociclistas passaram a ser o principal grupo de vítimas de acidentes de trânsito no País. “O trânsito se tornou o principal problema de saúde nos países mais pobres. Hoje, há uma pandemia de acidentes com motocicleta na América Latina”, afirmou Pavarino.

Essa visão também foi compartilhada pelo diretor-presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), José Aurélio Ramalho. “O grande problema está nas pessoas que sobrevivem, mas ficam com sequelas para o resto da vida. Hoje são quase dois milhões de brasileiros que representam um alto custo social”, informou o executivo. De fato, estima-se que para cada óbito no trânsito, há 15 pessoas que sofrem traumatismos graves, que requerem hospitalização, e 70 casos de lesões menores.

É por causa desses números alarmantes que a redução pela metade do número de mortos nos acidentes de trânsito até 2020 é um dos objetivos adotados na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Contudo, uma meta ainda mais importante é o Objetivo 11.2, que prevê a criação de um sistema de transporte mais seguro e inclusivo até 2030, principalmente por meio da expansão do transporte público, com atenção especial às necessidades daqueles em situação vulnerável, como crianças, mulheres, idosos e pessoas com deficiências.

Comunicação como aliada do setor

“O caminho do diálogo – construindo relacionamentos com a sociedade, passageiros e funcionários” foi o tema da palestra master do Seminário, ministrada pelo especialista em comunicação e sócio-diretor da empresa FSB Comunicação, Flávio Castro. Para ele, a comunicação corporativa realizada de forma permanente é uma ferramenta fundamental para o fortalecimento da imagem pública e da competitividade do setor de transporte público urbano.

O especialista apresentou dados que registram como a falta de confiança nas instituições aumentou nos últimos anos, sejam em governos ou em empresas, e como isso levou a uma mudança de atitude em relação a marcas e serviços. “É fundamental ter estratégia, ter porta-vozes bem preparados e mensagens claras e definidas”, finalizou o palestrante.

Oficinas de tecnologia

Desde que a NTU passou a oferecer oficinas técnicas no último dia do Seminário Nacional, os debates se tornam cada vez mais produtivos e o público, mais interessado. Este ano, as discussões giraram em torno de temas atuais e que desafiam cada vez mais a gestão e operação do transporte coletivo: sistemas de pagamento e novos negócios; startups; e a mudança da matriz energética do setor (diesel híbrido/elétrico).

Sobre as inovações que estão sendo implementadas na bilhetagem, foram apresentadas soluções como o MV Contactless, sistema que utiliza cartão com um tipo de chip que efetua a cobrança da viagem apenas pela aproximação com o validador, tornando o embarque mais ágil. Segundo Fernanda Caraballo, diretora de desenvolvimento de negócios da Mastercard, o sistema já é usado em vários países; o cartão também pode ser cadastrado no smartphone e utilizado para outras finalidades. “Tecnologia só é útil se resolve problemas”, afirmou Rafael Teles, diretor de produtos da Transdata, referindo-se à evolução e à capilaridade que os meios de bilhetagem oferecem, como o aumento da velocidade de transação e a diminuição de filas no transporte público, entre outros benefícios.

De acordo com Paulo Celso Dantas, superintendente comercial da TACOM, atualmente cerca de 70% dos usuários de transporte público usam Smart Cards e 30% ainda utilizam dinheiro, o que representa um custo dentro desse cenário. De acordo com ele, o objetivo é tornar mais acessível o cartão de transporte para o público, com as novas tecnologias e a possibilidade de usar o smartphone para pagar o bilhete, incentivando assim a redução do número de pessoas que usam dinheiro nos ônibus.

A mesa do painel estava composta por Edmundo de Carvalho Pinheiro, diretor geral da URBI Mobilidade Urbana e conselheiro da NTU; Marcelo Sarralha, executivo da área de mobilidade da Visa; Fernanda Caraballo, diretora de desenvolvimento de negócios da Mastercard; Leonardo Ceragioli, diretor comercial da Prodata Mobility; Paulo Celso Dantas, superintendente comercial da TACOM; Rafael Teles, diretor de produtos da Transdata; e Milton Silva, gerente comercial da Empresa 1.

O painel sobre o tema “Inovação no transporte público: o papel das startups” iniciou suas discussões com a constatação de que o Brasil passa por momento em que a tecnologia avança rapidamente. Exemplo disso é o transporte por aplicativo, que está cada vez mais em evidência e vem se consolidando no País. A mediadora Richele Cabral, diretora de Mobilidade Urbana da Fetranspor (RJ), trouxe à tona, no debate, como as startups do setor estão buscando o desenvolvimento de novas tecnologias e o impacto disso para a sociedade, além de discutir os benefícios e os possíveis problemas dos novos formatos.

A implementação de novas tecnologias foi compartilhada por dois dos painelistas, Marco Moniz, diretor de operações da M2M, e Mauricio Consulo, diretor geral da América Latina da Clever Devices. Segundo os especialistas, as pessoas estão muito inseridas em novas tecnologias e com um olhar muito atento para entender como o mercado funciona, para justamente melhor absorver essas novas ferramentas.

O setor passa por constantes mudanças, principalmente com as soluções de aplicativos e modais alternativos como bicicletas e patinetes, vistos comumente em cidades da Europa e que estão se disseminando no Brasil. A Cittati aposta em soluções que monitorem e deem um direcionamento maior à gestão de frotas e big data, trazendo um perfil de deslocamento do usuário e o tempo em que passa no transporte. Outro ponto abordado foi a necessidade de se utilizar soluções que sejam regulamentadas e trabalhem junto ao poder público.

“Para que haja uma melhor interação do usuário com a tecnologia no transporte e consequentemente uma melhor capilaridade, é preciso que haja mais previsibilidade dos horários. Isso faz com que diminua a ansiedade e com que este usuário consiga se programar”, pontuou Rodney Freitas, CEO da uBus.

Com as mudanças de comportamento das gerações e da população, a interação de deslocamentos, necessidades e horários também mudam, segundo pesquisa da Cittati. O estudo revela que 81% das pessoas que se deslocam por meio do transporte público têm acesso a algum tipo de aplicativo de transporte, mas o nível de utilização ainda é baixo.

Dados da Ecobonuz sobre novas soluções mostram que 85% das pessoas que estão dentro do ônibus concordam que, se tivessem poder aquisitivo maior, deixariam este meio de transporte. Por isso, a companhia sugere novas soluções de fidelização com modelo de troca por microbenefícios, como recargas de celular e vale-presentes de passagens de ônibus, entre outros aspectos para engajar o usuário.

Na última oficina técnica do Seminário Nacional NTU 2018, o debate sobre “o que move o setor: diesel versus híbrido/elétrico” foi iniciado com a apresentação de um pequeno vídeo com dados sobre o efeito estufa e aumento de poluentes no meio ambiente. A partir disso, o mediador Francisco Christovam, presidente do SPUrbanuss (SP), questionou os debatedores sobre a nova lei municipal de São Paulo (Lei nº 16.802/2018), que visa zerar a emissão de CO2 nos veículos de transporte de passeio, carga e passageiros em 20 anos.

Em resposta, os participantes apresentaram dados mostrando que o País é considerado o sétimo maior poluente de CO2 no mundo, sendo responsável por 3% da emissão global total. Mas também mostraram que o Brasil possui empresas competentes e capazes de reduzir o consumo e as emissões, além de alcançar soluções sustentáveis.

Foi consenso, durante o debate, que somente as leis não são capazes de alavancar o progresso com relação à emissão de poluentes, mas são necessárias políticas públicas de investimentos em combustíveis renováveis e outras tecnologias. O futuro é elétrico, conectado e compartilhado, seja daqui a cinco, dez ou vinte anos, afirmaram.

Participaram das discussões André Rodrigues de Oliveira, chefe de vendas e marketing de ônibus para a América Latina da Scania; Adalberto Maluf, diretor de marketing, sustentabilidade e novos negócios da BYD; Ieda Maria Alves, gerente comercial na Eletra Industrial; Fabiano Todeschini, presidente da Volvo; João Hermann, gerente de marketing da MAN Latin America; e Orlando Zibini Junior, gerente de vendas e marketing da Mercedes-Benz do Brasil.

E AGORA, BRASIL? – TRANSPORTE PÚBLICO

A manhã do primeiro dia foi dedicada ao seminário “E agora, Brasil? – Transporte Público”, organizado pelo jornal Folha de S.Paulo em parceria com a NTU como parte da programação do Seminário Nacional. O seminário da Folha reuniu representantes de quatro candidaturas à presidência da República e dois especialistas de transporte, que atuaram como debatedores. Todos os representantes defenderam a priorização do transporte público, a melhoria da qualidade do serviço e a realização de novos investimentos em infraestrutura.

A candidatura do PT foi representada por Jilmar Tatto; o porta-voz do candidato do PSDB foi Jurandir Fernandes; o representante da candidatura do MDB foi Tarcísio Gomes de Freitas; e o PCdoB foi representando por Wagner Fajardo.

 

FEIRA LAT.BUS TRANSPÚBLICO

Realizada em São Paulo desde 2007, a cada dois anos, a Feira Transpúblico reúne os principais fornecedores do setor, entre fabricantes de chassis, carrocerias e componentes para ônibus urbanos e rodoviários. Este ano, a Feira apostou na retomada do crescimento do setor e ampliou sua abrangência para incluir expositores e visitantes dos países vizinhos, passando a ser Feira Lat.Bus Transpúblico – Feira Latino-americana do Transporte. Ocupando um espaço de 16 mil m2, o dobro da edição anterior, a Feira trouxe este ano 80 expositores de diversas áreas ligadas ao transporte urbano e rodoviário de passageiros e contou com a presença de mais de sete mil visitantes. A partir de 2018, a Feira Lat.Bus Transpúblico passa a ser realizada sempre nos anos pares.

 

* Matéria publicada a revista NTUrbano, edição julho/agosto

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