Grande ABC tem 69 multas por celular no trânsito por dia

Para onde quer que você olhe, verá alguma pessoa utilizando o aparelho celular: na rua, no trem, no ônibus e também no carro – não só os passageiros, como os motoristas. No Grande ABC, em cinco das sete cidades (Diadema, Mauá, Santo André, São Bernardo e Ribeirão Pires) foram aplicadas, no primeiro semestre deste ano, 12.424 notificações por essa razão, o equivalente a 69 por dia.

De acordo com o artigo 252 do CTB (Código de Trânsito Brasileiro), dirigir veículo e fazer uso de telefone móvel é infração média e resulta em ganho de quatro pontos na CNH (Carteira Nacional de Habilitação) e multa no valor de R$ 85,13.

O número de multas contabilizado desde janeiro é 10,38% maior do que o observado no mesmo período de 2014, quando as cinco cidades registraram 11.256 autuações. Em todo o ano passado, 25.309 punições foram expedidas nos seis municípios (Rio Grande da Serra não informou dos dados).

Quem deveria dar o exemplo não resiste àquele que parece ter se tornado o amigo inseparável do dia a dia. Em Santo André, o Diário flagrou um motorista da Prefeitura, que conduz van de transporte para pessoas com deficiência dirigindo e falando ao celular ao mesmo tempo. Informada pela equipe de reportagem sobre o fato, a administração municipal, por meio do Departamento de Engenharia de Tráfego, declarou que todos os condutores são responsáveis pelos seus atos. “Se qualquer servidor passar por uma equipe de fiscalização de trânsito e for constatada infração, o veículo será autuado”, disse em nota. O município andreense, aliás, é o que registra maior número de autuações nessa questão: só neste ano, foram 6.981 multas.

O uso do celular não se restringe ao falar. O que mais se vê agora são pessoas conduzindo o veículo e digitando mensagens; até motociclistas se enquadram na situação, como o Diário também flagrou. Nessa hora, não tem bom motorista: estudo do NHTSA (Departamento de Trânsito dos Estados Unidos) revela que o uso de dispositivos móveis ao volante aumenta em até 400% o risco de acidente.

“Para dirigir um veículo, é preciso ter concentração, raciocínio e resposta motora rapidíssima. Essas funções ficam comprometidas quando você desvia a atenção para o celular, ou seja, os fatores principais para ter uma direção segura”, salienta o chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), Dirceu Rodrigues Alves Junior.

O especialista explica que, quando se está ao volante, o toque do celular produz no condutor um efeito surpresa e a busca imediata ao equipamento, acompanhado de intensa ansiedade. “Ao buscar o celular, o indivíduo se desconecta da direção e leva quatro a cinco segundos para fazer o contato. Se estiver a 100 km/h, terá percorrido 120 metros sem atenção para os 360 graus que lhe cercam, ficando restrito a visão dianteira”, ressalta.

O comerciante Valdemir Aparecido da Silva, 56 anos, de Mauá, sabe disso, mas, ainda assim, não resiste em mexer no equipamento enquanto dirige. Já levou duas multas por essa razão. “Já freei bruscamente para não bater no carro que estava à frente. Realmente desvia a atenção e eu preciso parar, porque sei que para causar um acidente é só questão de tempo.”

Cultura só mudará com Educação

A solução para evitar a disseminação da imprudência no trânsito seria começar a formar, no presente, os condutores do futuro – as crianças. Essa é solução, observada por especialistas, para mudar o atual cenário. “Acho que poderia haver nas escolas a matéria de Mobilidade Urbana, que ensinasse a importância de atravessar na faixa, de respeitar o sinal de trânsito, a questão da utilização de celular e tantas outras coisas. Se não começar na base, as pessoas nunca serão educadas”, fala o mestre em Engenharia Automotiva e coordenador de Engenharia da Universidade Mackenzie Campinas, Luiz Vicente Figueira de Mello.

“Precisa usar da educação de trânsito desde a criança, para aprender os males e perigos da máquina sobre rodas, até a fase universitária, quando tirar a CNH (Carteira Nacional de Habilitação). O curso de formação precisa ser mais contundente, porque o que aprendemos hoje é fazer o carro andar”, frisa o chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), Dirceu Rodrigues Alves Junior.

Junior também acredita que o valor de R$ 85,13 para quem é flagrado dirigindo e utilizando o celular é ínfimo diante do risco que isso representa. “São necessárias fiscalização e punição severas. O valor deveria ser como o que ocorre com a Lei Seca, de R$ 1.800 a R$ 1.900, para que possa coibir o uso deste equipamento.”

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