Cidades eficientes (Artigo)

 

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Renato de Souza Meirelles
Concentração urbana e êxodo rural são hábitos humanos milenares. A história registra, desde os tempos bíblicos, migrações de grupos e etnias por uma vida melhor, para fugir de perigos ou pela sobrevivência.

Com o tempo, o fenômeno se acentuou. Dos primeiros burgos, na formação dos Estados europeus ocidentais, até o modelo atual, as cidades vivenciaram um adensamento populacional muitas vezes sem as correspondentes infraestruturas.

Da baixa Idade Média ao surto epidêmico do século 14, a população europeia cresceu de 35 milhões de pessoas no ano 1000 para 80 milhões em 1347. Se há mil anos a Europa levou quase 350 para mais que dobrar de tamanho, nos próximos 40 a mancha urbana deve duplicar de 3,5 bilhões para 6,3 bilhões em 2050.

Há cinco anos, metade da população mundial vivia nas cidades. Em 2050, serão 75%. O consumo de energia nas metrópoles passará de 75% para 80% do que é produzido no planeta. A emissão de gás carbônico, de 80% para 90%.

O Brasil definiu seu perfil urbano/rural em pouco mais de 30 anos. O Japão levou mais de 100 para fazê-lo. Nossa demografia cresceu rápido demais, sem infraestrutura e serviços compatíveis. Em 2010, o país tinha 160 milhões de pessoas nas cidades, 84% da população. Em 35 anos serão 204 milhões –94%.

Temos o maior adensamento urbano das dez maiores nações do mundo e assim será nos próximos 40 anos. Na China, em 15 anos, 300 milhões vão migrar de áreas rurais para as cidades. É preciso dobrar a capacidade urbana global com eficiência, pois a ela se resume o debate sobre as cidades inteligentes .

O conceito de cidades eficientes se apoia no tripé habitabilidade, eficiência e sustentabilidade, que orbita num centro de gestão e controle, administrado pelo poder municipal. A dinâmica envolve governança, baseada em inovação tecnológica, conectividade e participação. Moradia eficiente é viver perto do trabalho, das ofertas de lazer e consumo, com pouco uso de energia.

As infraestruturas articulam eficiência viária com hospitais, escolas, fornecimento de energia e de gás, telecomunicações, captação, tratamento e distribuição de água, abastecimento de alimentos, iluminação pública, coleta e tratamento de lixo e esgoto e escoamento da chuva.

Na mobilidade –prioridade no Brasil depois das manifestações de junho de 2013– o foco é a gestão integrada dos modais de transporte, dos sistemas troncais a suas capilaridades. Da complementaridade do metrô com o trem metropolitano, o ônibus e as vans. Acesso rápido e prioritário e informação ao cidadão.

Um só trem equivale a 84 automóveis e 16 ônibus. Ele transporta 60 mil passageiros por hora. O ônibus leva 6,7 mil. O carro, 1,8 mil. O trem emite 60% menos gás carbônico que o carro e 40% menos que o ônibus.

A economia no século 21 é compatível com as manchas urbanas. O fenômeno traz para as cidades indústrias que devem poluir menos e contribuir mais com a sociedade.

O financiamento disso tudo é resultado de engenharias financeiras criativas, como títulos públicos municipais, debêntures, valorização de áreas beneficiadas com serviços efetivos, parques e praças revitalizadas.

As cidades hoje competem por investimentos. Mais que incentivos fiscais, os atrativos são conectividade e logística que fomentam negócios, sobretudo os pequenos e médios, que mais geram empregos.

Assim, elas expressam qualidade de vida e inclusão social, que a intensifica, proporcionando harmonia e dignidade a contribuintes, eleitores e cidadãos.

RENATO DE SOUZA MEIRELLES, 53, engenheiro civil, é presidente da CAF (Construcciones y Auxiliar de Ferrocarriles, S.A.) no Brasil

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