A intermodalidade como solução – MOBILIDADE

Nenhum caminho de reinvenção para sobreviver no pós-pandemia de coronavírus, ou transporte coletivo brasileiro terá que descer do trono, misturar-se e ser até permitido com outros modos de transporte. Terá que renderizar não apenas em bicicleta, mas outros atores da micromobilidade tão freqüentemente menos apreendidos pelos ônibus, trens e metrôs. Está mais do que na hora de aliar-se a eles. Enxergar a mobilidade como um todo, formar por diferentes atores, cada um com um papel. Dar as mãos até os aplicativos de transporte privado. Mais do que nunca, uma intermodalidade é uma questão de sobrevivência. Esse é o retorno da terceira reportagem da série O futuro do transporte público não pós-pandemia, que vem sendo publicado pela Coluna Mobilidade, e que faz um diagnóstico dos desafios a serem afetados pelo setor no próximo “novo normal”.

Bicicleta no acesso ao transporte

O momento é focar a complementaridade e abrir para novo – uma bicicleta, os patinetes e os aplicativos, por exemplo. O transporte público coletivo tem essa missão. “Cada um tem seu papel na mobilidade urbana. Tanto os transportes de alta capacidade como os da média e os que fazem a micromobilidade são fundamentais. Além disso, é preciso estar aberto ao novo porque os jovens de hoje não querem mais o deslocamento de carro ou um único modal. Uma pesquisa recente da Folha de São Paulo mostrou que 84% dos jovens já usam aplicativos para complementar as viagens de transporte. Isso já é uma realidade. Temos que aproveitar essa lógica no pós-pandemia “, alerta João Gouveia, vice-presidente executivo da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos) e que atua por mais de 15 anos na Supervia,

Aplicativos: inimigos inimigos

Entre os desafios para reverter, há uma demanda superior a 70%, que é dada como mãos ao inimigo. Ou pelo menos aquele que era visto como inimigo até uma pandemia: os aplicativos de transporte individual de passageiros – Uber e 99. Crie parcerias e incentive a integração física e tarifária, como repasse de informações em conjunto e descontos para quem utiliza os dois modos integrados . Algumas cidades já têm parcerias. São Paulo e Rio de Janeiro são as principais.

Combate à ineficiência é urgente

Além da urgência da intermodalidade, o combate à ineficiência operacional dos sistemas de transporte coletivo é fundamental. Mais uma vez quem alerta é João Gouveia, da ANPTrilhos. “A sobreposição e a competição entre os tipos de transporte de média e alta capacidade sempre foram comuns e a sociedade brasileira sempre aceitou isso. Mas agora não é mais aceitável”, destaca.

Renovação e inovação são o caminho necessário

O momento é de renovação e inovação, de pensar fora da caixa, de buscar parcerias por duas razões. A primeira é prática. Para tentar segurar o passageiro e atrair novos, conseguindo, ao menos, manter a demanda pré-pandemia. A segunda, pela imagem do serviço. Nunca o setor de transporte precisou tanto do conceitual, de melhorar a forma como as cidades o vêem. A pandemia da covid-19 tem mostrado o quanto ele é necessário, mas se não houver uma modernização do serviço, que o faça ser mais acessível, rápido e confortável, será engolido pelo novo e – o que é mais temerário – pelo transporte clandestino e todos os perigos que ele representa.

Estudiosos do setor defendem que é preciso pensar no usuário futuro, não entregar apenas para o usuário atual, como acontece. Atingir as pessoas dispostas a pedalar e a caminhar e que podem aliar esse hábito e vontade ao transporte de média e alta capacidade. Por isso a conexão com a bicicleta é tão importante. As duas edições do Perfil do Ciclista no Brasil (2015 e 2018) indicam que a maioria de quem pedala não faz integração com outros modais. Mais de 80%. No Recife, esse percentual chega a 89%. Muitos não integram por falta de opção que ofereça praticidade e segurança. Como uma ciclovia ou ciclofaixa que o leve a uma estação de metrô ou um terminal de ônibus, e um bicicletário acessível financeiramente e onde possa guardar sua bike com segurança.

O Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) defende que os deslocamentos em cidades grandes precisam ser vistos em cadeia, com integração intermodal, nos quais o transporte público cumpre parte dos trechos. O restante pode e deve ser feito por modos ativos. Por isso a bicicleta é uma aliada no acesso ao transporte coletivo. Para o ITDP, sistemas de transporte de média e alta capacidade têm sido a forma mais utilizada para comportar os deslocamentos de grandes distâncias nas cidades, seja para trabalho ou lazer. Mas eles não são apropriados para deslocamentos mais curtos. O ITDP vem monitorando o número de pessoas que vivem a até um quilômetro de sistemas de transporte estruturante nas cidades, o que equivale a 15 minutos a pé. No Brasil, apenas 13% da população com renda mensal abaixo de um salário mínimo moram próximo a essa infraestrutura, enquanto 30% dos moradores com renda acima de três salários mínimos estão a 300 metros de uma rota segura para ciclistas. No Recife, esse percentual cai um pouco: 24%. Mas, mesmo assim, a intermodalidade segue sendo fundamental para a sobrevivência do transporte coletivo.

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